segunda-feira, 14 de maio de 2007

Visões de um latino no primeiro mundo.

O Brasil segundo Johns, Mikes, Scotts...
Um brasileiro na América, é o que sou... e faz algum tempo que essa verdade me acorda toda manhã. Sonhei dias atrás que estava no Brasil... O Brasil que eu conheço, não esse que eu vejo na TV daqui, não esse que os americanos imaginam existir...Isso mesmo existem dois "Brasis": o BRASIL e o BRAZIL....não seriam todos iguais? Não fossem as lentes deturpadas e os roteiristas com o poder do corte na mão, tudo poderia ser muito mais real...Um amigo se aproxima de mim, é o Mike, ele pergunta:-É verdade que no seu país as mulheres andam quase nuas pelas ruas?Eu pensei e respondi:-Em alguns lugares sim, na praia,em piscinas, como aqui também acontece...O assunto se estendeu, tomou outros rumos, mas depois eu fiquei pensando:-O que é o Brasil pra essa gente aqui...pro resto do mundo?Sempre quando alguém se refere ao meu país aqui, fala de mulher, futebol e carnaval...A impressão é que a gente não trabalha, anda pelado e joga bola o dia inteiro. Tenho que convir que em alguns lugares da terra, que Cabral diz ter descoberto, isso aconteça com certa frequencia...mas daí generalizar me deixa P...da vida.Não culpo as pessoas que vivem aqui, nem fico com raiva delas. O Brasil que elas conhecem é aquele que elas vêem na TV e infelizmente se vende essa imagem para o mundo.Nós mesmos somos culpados de sermos taxados de algumas maneiras que não merecemos, nossos filmes, nossas festas populares que o mundo transmite, são veículos de forte impacto na mente de quem assiste sem um olhar crítico. Outro dia vi um filme aqui onde o mocinho, em visita ao Brasil, vai à praia e lá se pode ver mulheres sem a parte de cima do biquíni e com macacos nos ombros...O Brazil com Z é um país sem produção industrial, sem lei, sem gente civilizada, sem nada mais a oferecer que as belas praias do Rio e sexo fácil...Nós vendemos essa fotografia, nós criamos esse desenho. Não se vê um filme aqui que mostra o Brasil que produz, que tem um povo batalhador, que luta com pouco e sempre está sorrindo mesmo vivendo pobremente num dos países mais ricos do planeta.Tenho saudades sim, não do BRAZIL, mas do BRASIL, pois sei que a minha terra ainda tem palmeiras onde canta o sabiá...Tenho saudades de ver as pessoas se cumprimentando sem se conhecer e sonhando sem motivos pra sonhar...Nostalgia momentânea que me invade sempre que estou sem nada pra fazer.Lembro-me de quando aconteceu aquele acidente aéreo onde um legacy pilotado por norte-americanos colidiu com um avião de passageiros da Gol, no céu do Brasil, A TV brasileira não falava de outra coisa.No entanto perguntei ao meu chefe o que ele achava sobre isso, ele respondeu:-Quando foi que aconteceu?Ele simplesmente não sabia do ocorrido. Fico imaginando uma situação inversa...Se um legacy brasileiro causa um acidente dessa proporção aqui, em território norte-americano, com um avião da American Airlines, no mínimo seríamos acusados de terrorismo. E talvez agora estaríamos sendo bombardeados e atacados pelo exército do "Dono-do-mundo", aí sim o Brasil seria notícia por aqui...Enquanto isso na terra do Tio Sam, dos Johns, Mikes e Scotts o "BRASIL" ainda continua sendo "BRAZIL".

Magno Assis




sexta-feira, 11 de maio de 2007

Visões de um latino no primeiro mundo.

A barreira da língua.
A minha carne está queimando no gril, mas eu não posso deixar de exercer minha profissão paralela. Permita-me apresentar, sou cozinheiro e observador. Cozinho por dinheiro e observo por prazer. Sou cozinheiro 83 horas por semana, e observador em tempo integral. Sou mais um brasileiro nos Estados Unidos.A cozinha é aberta, no meu trabalho da noite, os clientes podem ver preparando a comida ; é chato às vezes, porque a sensação de estar sendo observado não é das melhores. Mas, como tudo na vida tem dois lados, eu também posso vê-los comer e é nessas horas que o cozinheiro se torna observador.
Um casal está fazendo o pedido, eles lêem o cardápio e após alguns minutos de indecisão pedem dois pratos pra comer na casa (temos também pra levar). O casal senta e espera a comida, trocam uma meia dúzia de palavras, ela tira um notebook da maleta e abre seu email. A comida chega, eles comem sem pressa e sem palavras. Ela no computador, cuidando para que nao suje o teclado, ele olhando as costas do monitor…
Essa situação é bem comum por aqui, o que muda é a "barreira dialogal", notebooks, livros, palavras cruzadas, celulares, tv’s, iPods e tantas outras tecnologias que bloqueiam o diálogo, tanto na hora da refeição, no ponto de ônibus ou no ócio de casa. Viver no primeiro mundo tem me feito um observador mais calado. Não pelo "muro" da língua, nem da cultura. O que acontece é que as pessoas simplesmente não se falam.
Outro dia, no mesmo restaurante, uma senhora passou mais de uma hora sentada em frente ao seu acompanhante preenchendo palavras cruzadas, sem emitir um som, nem ao menos para pedir ajuda no passatempo. O casal do notebook se levanta, ela guarda o brinquedo na maleta e saem. Creio que o som do carro os impeça de conversar na volta para casa…
Minha carne queimou, não é facil ter duas profissões ao mesmo tempo. Talvez como cozinheiro eu seja um ótimo observador, ou quem sabe eu ando trabalhando demais e esteja mesmo precisando de um bom papo.
Magno Assis