A barreira da língua.
A minha carne está queimando no gril, mas eu não posso deixar de exercer minha profissão paralela. Permita-me apresentar, sou cozinheiro e observador. Cozinho por dinheiro e observo por prazer. Sou cozinheiro 83 horas por semana, e observador em tempo integral. Sou mais um brasileiro nos Estados Unidos.A cozinha é aberta, no meu trabalho da noite, os clientes podem ver preparando a comida ; é chato às vezes, porque a sensação de estar sendo observado não é das melhores. Mas, como tudo na vida tem dois lados, eu também posso vê-los comer e é nessas horas que o cozinheiro se torna observador.
Um casal está fazendo o pedido, eles lêem o cardápio e após alguns minutos de indecisão pedem dois pratos pra comer na casa (temos também pra levar). O casal senta e espera a comida, trocam uma meia dúzia de palavras, ela tira um notebook da maleta e abre seu email. A comida chega, eles comem sem pressa e sem palavras. Ela no computador, cuidando para que nao suje o teclado, ele olhando as costas do monitor…
Essa situação é bem comum por aqui, o que muda é a "barreira dialogal", notebooks, livros, palavras cruzadas, celulares, tv’s, iPods e tantas outras tecnologias que bloqueiam o diálogo, tanto na hora da refeição, no ponto de ônibus ou no ócio de casa. Viver no primeiro mundo tem me feito um observador mais calado. Não pelo "muro" da língua, nem da cultura. O que acontece é que as pessoas simplesmente não se falam.
Outro dia, no mesmo restaurante, uma senhora passou mais de uma hora sentada em frente ao seu acompanhante preenchendo palavras cruzadas, sem emitir um som, nem ao menos para pedir ajuda no passatempo. O casal do notebook se levanta, ela guarda o brinquedo na maleta e saem. Creio que o som do carro os impeça de conversar na volta para casa…
Minha carne queimou, não é facil ter duas profissões ao mesmo tempo. Talvez como cozinheiro eu seja um ótimo observador, ou quem sabe eu ando trabalhando demais e esteja mesmo precisando de um bom papo.
Magno Assis

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