Mãe,
Hoje faz um ano e nove meses que eu estou aqui. A cada mês que se finda eu faço um balanço da minha estadia no primeiro mundo. Eu sabia que ia ser duro a saudade, e que problemas viriam, mas só sentindo hoje na pele, posso dizer: _A falta que vocês me fazem dói muito no peito, fisicamente falando...
Eu acordo a cada manhã e já logo sinto a falta de pequenos detalhes que só aprendi a dar valor aqui. O cheirinho do café fresco e o acompanhamento que nunca faltava (ora era um pão frânces com manteiga, ora era uma broa de fubá). A gente morava na cidade, mas sempre havia um pedacinho da roça na geladeira...Ái que saudades do verdadeiro queijo minas, do doce de goiaba e do pé de moleque.
Ainda sem o café sigo para o trabalho, tenho acordado atrasado quase todos os dias. Na verdade, tenho dormido bem menos do que dormia. No caminho sinto saudades das ruas de pessoas apressadas, das crianças indo pra escola á pé e da buzina do padeiro a ecoar por todo o bairro. Tudo me lembra meu cantinho, todos rostos que vejo me lembra algum conterrâneo. Outro dia podia jurar que vi um velho conhecido na rua, mas depois soube que ele nunca saiu do Brasil.
O dia se segue, a correria e o stress do trabalho me fazem esquecer um pouco da terra natal. A hora do almoço chega e o cheiro do feijão fogado na hora não vem, nem o frango com quiabo, nem a feijoada. Mais uma vez não como direito, talvez por causa da pressa ou pela falta de apetite mesmo. Tenho perdido peso, mas há amigos meus que engordaram muito, parecem outras pessoas. Cada um reage de uma forma às mundanças de cultura.
Falando em cultura, sinto falta de conhecer meus vizinhos, de pedir açúcar munido de uma caneca ou emprestar um pouco de pó de café pra um morador do lado. Não sei quem são os ocupantes da casa da frente. Eu nem os vejo, penso que se escondem do frio no inverno e do calor no verão. Sinto saudades daquele calor humano, daquela sensação de querer ajudar que nós brasileiros temos. Como eu ficava feliz quando um amigo ia colocar laje na casa e chamava os conhecidos num domingo pra ajudar. O mutirão fazia do trabalho um lazer e a gente nem via o tempo passar. Tudo isso regado a cerveja, para os que bebiam, refrigerante e comida da boa. Não se pagava por isso, mas em compensação, se eu precisasse eles estariam sempre dispostos a me estender a mão.
Viver aqui tem me ensinado muito, tem me feito ser mais humilde. Vejo gente inteligente trabalhando em empregos que só usam as mãos ou músculos. Vejo amigos com capacidade limpando vidros e banheiros. Gente que não sabia fritar um ovo, cozinhando e até ensinando. Gente que ganha a vida e não tem vergonha do que faz.
O meu dia está acabando e eu sinto falta da liberdade de ir e vir sem medo da polícia e do tempo pra mim mesmo que eu tinha no terceiro mundo. Chego em casa, mas parece que não é minha casa, tudo que está aqui dentro é meu, porém algo me diz que esse não é meu lar. Falta alguma coisa, falta você mãe, falta nós todos juntos.
Outro dia um senhor me perguntou porque resolvi viver tão longe dos meus familiares. Eu respondi que para foi a forma que eu encontrei de dar uma vida melhor para vocês aí no Brasil e para os futuros membros da nossa família. Um pouco controverso não? Você quer melhorar as condicões financeiras dos seus pais e o preço é a sua ausência física. E como eu, existem milhões de latinos que renunciaram o aconhego do lar para se aventurar no primeiro mundo. Às vezes, me pergunto: _Será que vale à pena.
Se vale a pena ou não cabe a cada um de nós julgar, porque eu já sei. Ainda que eu não leve um dólar sequer pro Brasil, o que eu levo daqui dinheiro algum pode pagar: "A oportunidade de enxergar o valor das pessoas que você ama, de saber aproveitar cada momento e os pequenos detalhes que antes pareciam tão insignificantes".
Um Abraço.
De seu filho Magno Assis.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
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